Cultura

e Dicró cantou pra subir…

Não tem Pavaroti, nem José Carrera, nem Plácido Domingo. Eu sou mais o Bezerra do Galo, Moreira da Silva e Dicró Rei do Bingo.

Agora os Três Malandros estão juntos no céu. E nós, aqui na Terra, perdemos mais um grande comediante.

Conheci Dicró ouvindo os discos de meu pai, ainda na minha infância. Ria muito com suas músicas-crônicas da vida da favela. Narrando o enterro do Ricardão, negando a gravidez da sogra, falando do perigo que é a sua rua ou simplesmente contando seu fim de semana na praia de Ramos com a família. O Rei do Bingo era o último dos malandros vivos. Agora a música perdeu a sua malandragem de uma vez por todas.  Moreira e Bezerra completaram o trio e Deus, mais uma vez, levou pra perto de si o que nós temos de melhor.

A despedida de Dicró é quase uma sentença de morte ao samba malandro, engraçado e sem compromisso com a sociedade da elite. Era música de favela de qualidade. Era o morro se derramando em poesia pra o asfalto. E agora, foi-se.

Dicró a essa altura já deve estar armando uma banca de dominó com São Pedro, contando piada a São Paulo e furando a fila no purgatório. Por que malandro como ele não vai pra o céu de uma vez. Antes, tem de dar uma espiada no inferno pra ver se tem alguma coisa de bom pra vender lá em cima.

Mas o tempo é o sacana mais democrático do mundo, e fechou o paletó do Ricardão de Ramos. Agora, até o piscinão, vai perder um pouco a graça.

Mas um cara que arrecadou dinheiro pra animar o velório de Bezerra da Silva, não merece ser lembrado com tristeza. Salve, Dicró!

Fica abaixo uma entrevista do Jô pra quem não conhecia ele.

Manifesto contra o Arrocha

Hoje é o Dia da Poesia e em homenagem a ela escrevi esse manifesto.

Irmãos. É chegada a hora de unirmos nossas forças contra esse mal que vem assolando a nossa sociedade. É preciso acabar com esse degradante genocídio artístico-cultural instalado no seio do nosso amado solo baiano. A Bahia, que é conhecida mundialmente por ser a Terra de Castro Alves, Guimarães Rosa, Dorival Caymmi, Jorge Amado, João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Olodum, Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Araketu, Negra Cor, Mariene de Castro e tantos outros grandes nomes da nossa arte, parece estar se rendendo a pobreza artística de um certo “movimento” musical. O Arrocha.

Esse “movimento pélvico-musical”, advindo do Recôncavo baiano, primeiro desempregou vários dos nossos musicistas, trocando bandas inteiras por simples acordes de teclado. Depois, inventou um estilo “corno-music-baiano”, exacerbando o sofrimento dos homens traídos e das mulheres sofridas, tentando passar isso como uma “nova poesia” da Bahia. Não o é.

Depois, com essa doença social instalada nas classes C, D e E, passaram a buscar novos públicos, e o pior, acharam. Surgiu um deformação da deformação, um brega-ultra-corno-romântico denominado Arrocha-Universitário. Meu Deus! Os jovens de classe média, envergonhados de dividir o CD pirata de Silvano Sales com porteiro do seu prédio, criaram uma divisão sócio-cultural para manterem-se afastados dos artistas do povão. Nara Costa, Nira, Tairone Cigano, dentre outros, ficaram renegados às classes menos endinheirada da sociedade. Surgiram coisas  inusitadas e a maior delas foi um cantor com cara de Zacarias, voz estridente e insuportável, chamado: Pablo. Nunca entendi o sucesso musical de vozes absurdamente agudas. Mas, enfim. Passei a estudar a personalidade das pessoas que ouvem esse senhor, sucesso nas rádios, nos carrinhos de cafezinho e que consegue encontrar fãs, até mesmo dentro de empresas renomadas, como em algumas editoras que conheço. O sucesso desse rapaz é algo incompreensível para mim.

Mas até aí, tudo bem. É gosto, e gosto não se discute (mas mau gosto se comenta). O problema é quando a coisa começa a extrapolar o limite do bom senso.

Aí já é demais…

Ano passado tive o desprazer de ouvir o assassino musical internacional, Hebert Hakan (o Batman do Arrocha) e sua terrível interpretação de um clássico do rock, Have you ever seen the rain, do Creedence Clearwater Revival. Foi difícil, porém, sobrevivi.

Esse ano, um cidadão que vive a cantar recentes sucessos dos outros, com sua voz de pato rouco e seu lastimável teclado, assassinou a canção “Tantinho” de Carlinhos Brown. Porém, é capaz de Mr. Brown dizer que gostou da música na voz de Silvano Sales (o cantor apaixonado) e fazer a média no meio artístico baiano.

Vi ainda mais um atentado ao bom senso. Dessa vez a vítima foi nada mais, nada menos, que Adele. A magnífica cantora teve sua obra-prima, Someone like you, mixada com os acordes característicos do arrocha. Mas a gota a d’água viria logo em seguida.

Um dos maiores clássicos do rock dos anos 90 foi Sweet Child o’Mine, do Guns and Roses. Axl e companhia não imaginariam jamais, que sua obra de arte viria a receber uma caótica versão em ritmo de arrocha. Confesso não ter acreditado naquilo que meus olhos viam e meus ouvidos, tristemente, escutavam. E o pior, é que o vídeo dessa insanidade era feito em cima do clipe original do Guns. Não tenho coragem de divulgar aqui o link para tamanha aberração, mas quem quiser comprovar a veridicidade dessa coisa,  procure no Youtube “Sweet Child o’ Mine em arrocha”.

Caros irmãos, sei que outros movimentos musicais também falaram besteira em suas canções. Sei que a Jovem Guarda vivia de música bobas, como a “Festa do Bolinha”, “Biquini de bolinha amarelinha”, “Eu sou o bom”, e das versões de música gringa, como “Calhambeque” (Hound dog) e “Feche os olhos” (All my love). Sei ainda que muitas das músicas da Tropicália nasceram da utilização de produtos psicotrópicos, entre elas “Batmacumba”, “Refazenda”, “Araça azul” e todas de Tom Zé.

Porém, senhores, dessa vez estamos diante de algo ainda maior. Algo com proporções inimagináveis e que com a propagação em redes sociais, pode ganhar ares internacionais rapidamente. Sinceramente, estou profundamente preocupado. Se não reagirmos agora poderemos ter futuras gerações de arrocheiros por mais muitos e muitos anos.

Fica aqui o registro da minha indignação. E se no futuro, as minhas previsões apocalípticas se confirmarem, não precisam erguer estátuas minhas. Quero apenas que escrevam na minha lápide: “Esse aqui tentou nos alertar!”

PS. Essa é a MINHA OPINIÃO!

Erick da Silva Cerqueira é publicitário, apaixonado por música e um cara que odeia arrocha.