Carnaval – Chuva, Suor, Cerveja e Complexos

Assisti ao vídeo da Raquel Sherazade (veja também) criticando o carnaval. Ando meio cansado da mediocridade de alguns profissionais, que sempre em período momesco, pretendem rediscutir a festa no âmbito cultural, como se eles estivesse acima do bem e do mal. Aproveitam-se da popularidade do evento para aparecer um pouquinho, na verdade.

Já assisti palestras em faculdades, debates sobre os rumos do carnaval de Salvador, sociólogos, antropólogos e outros “ólogos” discutindo a festa e os seus preconceitos sociais. Sinceramente acho isso muito improdutivo e vago demais. É como discutir, numa conferência universitária em Salvador, o crescimento desenfreado da China, e as consequências das milhares de toneladas de lixo que isso irá acarretar para o planeta. Vai dar em quê?

Deixem o carnaval ser apenas uma festa. Sem um viés sociopolítico preconceituoso excludente. Uma festa do povo, sim. Afinal, os eruditos não curtem o Parangolé. Problema deles. E problema do povão que curti o Tchubirabirou. Live and let die, my friends.

Assim como é problema das elites-burguesas-opressoras, também. Se o camarada quer ficar no camarote Vip Mega Plus Up e tem dinheiro pra isso, deixa o cara viver a vida. Contanto que não jogue cerveja lá de cima nos outros, nem chame o cantor do trio de favelado, tudo certo.

Carnaval é festa do capitalismo, sim. O socialismo e o comunismo morreram, é preciso avisar isso para alguns. É o momento da descaração, das drogas lícitas (bebida, cigarro, pagode, arrocha) e do sexo com camisinha e sem compromisso . Ou seja, é uma forma de extravasar os sentimentos mais reprimidos pela sociedade durante o resto do ano.

Hoje em dia é o período onde a profissionalização baiana deve ser ressaltada. Somos brilhantes na organização da festa. Quem não tem dinheiro fica na pipoca, sai de perto das cordas e se protege nas calçadas. Dá pra curtir tranquilamente. Falo com a propriedade (igual a Sherazade) de quem nunca gastou um centavo comprando abadás. Quem tem muito dindin sai no Chicrete e quem tem pouco, no Tiete. Ces´t La vie.

Discutir o carnaval como centro de um grande preconceito racial é outra grande perda de tempo. Os negros e os brancos se espremem na pipoca e nos blocos, juntos como as teclas do meu piano, diria  Wonder. Se existem mais negros trabalhando nas cordas, catando latinhas e vendendo “três pirigueti a 5 conto” a conclusão é óbvia. Mais de 80% da população baiana é negra. E isso é motivo de orgulho durante os outros períodos do ano. Afinal somos a maior cidade negra do mundo fora da África. Na Oktoberfest tem um monte de “loirinhos” trabalhando, e ninguém reclama.

Bule-Bule é massa, Chico Buarque é fantástico, Mozart é meu ídolo. Mas tudo tem seu tempo. Citando o grande Haroldo Barbosa, “na avenida entre mil apertos, vocês vão ver gente cantando concertos“?

Acho preconceituoso falar mal da música “Liga da Justiça”. Talvez meu lado nietzschiniano me leve a perguntar: a música é ruim pra quem? Não é porque eu não gosto (e odeio esses pagodes) que ela necessariamente mereça o ostracismo e o mármore do inferno. Se você não gosta, segue meu conselho, não ouça. Sintonize a Globo FM ou acesse a radiouol.com.br e escolha o seu estilo musical. A Boa Música é uma questão de gosto, cara Raquel. As pessoas não devem ser obrigadas a conhecer Verdi, Chopin, Bach ou Jackson do Pandeiro. Estamos numa democracia, lembra? Uma vez mostrei o vídeo de “O sole Mio”, com Os 3 Tenores, para minha irmã universitária e culta. Sabe o que ouvi?  – É muita zuada…

Acho que a apresentadora Raquel Sherazade fez um comentário infeliz e rancoroso. Atitude típica de uma pessoa mal cuidada na plenitude do seu leito de amor. No mais é só mais um dos contos das “mil e uma noites” dela. Não vamos dar mais audiência a isso. Afinal, 2011 começa agora. Feliz Ano Novo para todos. E curtam a resposta de João Gilberto à Madame Raquel.

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12 comentários

  1. Como sempre, bela reflexão, corrente! Apesar de discordar de alguns pontos, fico feliz pra porra em ler seus artigos e ver que a gente não está “vendo a história passar”, nós estamos no mesmo bonde, ajudando a construí-la…

    Axé e Luz!

  2. Valeu meu Rei. Eu como sempre brilhante.
    Eu gosto de todo tipo de música, e vc sabe disso.
    Tem hora que até ODAIR JOSÉ é bom de ser curtido.
    Beijos filho.

  3. Se voces que criticam gostam mesmo de tudo certinho porqe não defendem a raça negra e os gays que o deputado ofendeu?Tenho certeza que as criticas da jornalista não foram ao povo BAIANO nem aos negros mas é na pompa que é o carnval,e que se gasta não tem retorno.

    1. Caríssimo. Obrigado pela leitura do texto. Mas vamos as nossas discordâncias.
      Não gosto de tudo certinho. Só não acho que a opinião dela (e nem a sua) seja coerente. Antropologicamente falando, tudo que o homem produz, é cultura. As músicas podem não ser do seu agrado, também não são do meu, mas se tem gente que gosta, que fazer?
      Não concordo com o deputado, mas muita gente concorda. Um cara que defende os presidentes da ditadura há tanto tempo, ainda está eleito em 2011. Vá brigar com quem votou nele, então.
      Já as críticas da jornalista foram ao formato da festa, sei disso. Mas mesmo assim não concordo com ela. E esse é MEU espaço para discordar dela. Se você discorda de mim, é um direito seu. E eu publico seu comentário, contanto que não me ofenda, é claro. Ah, e eu acho as escolas de samba uma enorme porcaria enfeitada de plumas. E aí? Aqueles sambas enredos que se repetem por uma hora… Um porre. Abraços.

  4. Ola Erick, um abraço.Obrigado por responder,mas a minha intenção não era te ofender,leio seus comentarios e vejo que são todos inteligentes,so discordei de alguns pontos que é direito nosso afinal o pais é democratico e temos liberdade de expressão não é?.Tambem gosto de BAH,MOZART,PAVAROTI,BOCCELI etc, quando disse que os sambas enredos trazem algo de util,me referia as letras que contam historias ou falam de outras culturas, acho tambem que é muito cansativo ficar ouvindo os mesmos acordes por mais de uma hora,mas te confesso que não vejo nem um minuto de carnaval pois não gosto mesmo, mas tanta gente gosta,eles que se danem…desculpe se te ofendi não era minha intenção.

  5. Dizem que a árvore se conhece pelo fruto:
    Raquel Sherazade foi muito feliz em suas colocações, tanto que teve um reconhecimento muito precioso e agora está onde está.. e isso ninguém, mas ninguém mesmo poderá tirar.

    1. É, Joelma e o Calypso são outro exemplo sobre as árvores… Qualquer porcaria pode fazer sucesso, meu amigo…

  6. Engraçada a sua resposta à jornalista. Meu caro, duvido muito que o senhor seja mesmo o “pipoca” que diz ser. Não questiono qualidade de música, só gostaria de saber qual a vantagem que o povão que o senhor diz tem com o carnaval de Salvador. Pelo que me consta, eu sei que Ivete, Bel e outros estão milionários. Caia na real, cara. O carnaval de Salvador é pra rico. Sua conversa de de que quem não tem dinheiro sai na pipoca é conversa de riquinho se explicando porque alguém questiona sua grana. Vamos à realidade. Tenho um sonho, muito simples: é ninguém se sujeitar a esse tipo de trabalho escravo de ser cordeiro de bloco em Salvador ou qualquer outro lugar do mundo. Aí o senhor vai poder dizer que o carnaval é uma festa do povo.

    1. Que Deus ouça suas “palavras” e me deixe “riquinho”…
      Talvez um dia vc me encontre no “grande bloco Apaxes” (o qual eu faço o desenho dos abadás) ou curtindo o carnaval na passarela do Campo Grande.
      Continuo discordando que carnaval seja pra rico. Carnaval pra rico é no Camaleão, no Corujas… Mas no Apaxes, Comanches, Muzenza é coisa de cem reais, dois abadás, pra três dias de festa, cara.
      Quanto ao seu sonho, acho meio utópico. Pra cada grande pianista, existirá sempre 3 ou 4 “holdings” pra carregar o piano. Trabalho escravo? Acho que é sua opinião. Trabalho indecente, com pagamento indigno, sim. Aí eu concordaria…
      De qualquer forma, obrigado pelo comentário.
      Abraços

  7. O carnaval era a expressao folclorica brasileira, inclusive ingenuo e puro, mas só foi a TV Sexo, tb conhecida por TV gLobo em pele de cordeiro entrar na parada, enchendo o video com bumbuns pelados, mulheres inteiras peladas e muita pornografia, q o carnaval se tornou a expressao pornografica brasileira, com as consequencias para a imagem do pais la fora e a degradacao de valores e atitudes aqui dentro, q obviamente chegam aos governos tb. E a Rachel tá de parabens, pois eu ja dizia a muitos antes dela q nada fica pra cidade, nenhum posto de saude nem escola, apenas alguns particulares levam todos os milhões publicos.

  8. Desculpe, mas não apoio uma virgula do que você diz aí em cima; continuo defendndo a Rachel. Rachel com CHe, não com QUE.

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