A Odisseia do pobre e a falta de educação

Toca o despertador. Olho e meio incrédulo enxergo um número quatro antes dos dois pontos… Hora de levantar. Procuro minha sandália, não acho. Vou descalço pra o banheiro e o chão frio me desperta de uma vez. Ligo a luz e descubro, faltou energia. Maldita Coelba… Escovo os dentes rapidamente e me jogo debaixo dá água gelada. Meio congelado desperto minha esposa.

– Acorda amor. Senão não pegamos a “ficha” do Posto de Saúde para levarmos nosso filho. Olho meu filho ainda dormindo e com a inocência dos poucos meses de vida, não imagina a odisséia a ser vivida pelos seus pais.

Guernica moderna

Guernica Moderna

Tomamos café correndo e saímos. Pisando em lama, caminhamos até o ponto de ônibus. A prefeitura não asfaltou a rua até hoje… Chuvisca e ficamos expostos a chuva debaixo da falta de proteção do ponto. Dezenas de minutos depois vemos o maldito chegar atrasado no horizonte. Mas, para meu consolo, a frente do mesmo encontra-se vazia. Ao menos será uma viagem tranquila. Ledo engano. Subo os degraus me segurando e protegendo minha esposa e filho dos empurrões apressados dos nossos colegas de viagem. Dentro do ônibus, um imprevisto. Percebo que mesmo com a frente vazia, o fundo está lotado. Lembrando dos heróis de borracha vou me esgueirando entre o corredor humano a minha frente.

Finalmente, vencido a barreira da primeira metade do ônibus, vejo espaço. Ao menos, pelo alto. No chão, sete caixotes de mangas, de uma senhora simpática, estão sendo levados para serem vendidos na Feira de São Joaquim. Penso rápido: agora, já era. Olhe em volta e vejo um estudante fingindo dormir para não dar o lugar a minha esposa com meu filho no braço. Armado com duas sacolas enormes de crianças (nunca entendi tanta coisa pra um menino tão pequeno) e minha pasta do trabalho na outra mão, sinto mais dois caixotes entrando pela frente do “coletivo” e apertando meu pé. Junto com a caixa um grito :”Ó o pé ai veí”. É o fim. Revolto-me e solto um singelo “ó o pé ai uma p…, minha senhora. A senhora tá pensando que isso aqui é o que? Caçamba? Isso é um “coletivo” e não tem mais lugar pra tanta caixa aqui não. Vá colocar sua caixa na cabeça” (mudei a parte do corpo por uma questão didática). Agora sim, sou o senhor dos meus 30x20cm de chão no maldito buzu.

De repente ouço os murmurinhos… “Que grosseiro, como pode fazer isso com uma senhora de idade, uma guerreira que está tentando ganhar a vida honestamente…” Olho pra trás num impulso e as bocas estão todas cerradas. Finalmente salva-se uma alma do inferno e um dos pseudo-entorpecido, talvez assustado com minha explosão, cede o lugar a esposa com a criança no colo.

Cinco pontos e alguns insultos disfarçados depois, chegamos ao ponto do Posto de Saúde. Desço as escadas do “ônibus” sob os olhares de reprovação ao meu ato, mas feliz de tê-lo feito. No Posto, uma senhora desencorajada me pede uma papelada do tamanho do meu filho para poder vaciná-lo. Depois de analisar o livro, nota que a receita médica está sem a data. Me diz então em tom quase sarcástico:  
“- infelizmente, sem data, não podemos fazer nada…”
Imploro pra que a mesma repense o seu ato, considerando o meu transtorno e minha odisséia hercúlea, vivida antes do sol raiar, ao que ouço:
“- Se eu fizer isso posso ser até processada”.
Num ímpeto, perco a paciência e apresento a carteira da OAB dizendo: se ocorrer isso, eu defendo a senhora, sem problemas e de graça. Com fisionomia alterada, a mesma finalmente cede e aplica a vacina em meu filho. Agora, penso: e se não fosse advogado? Esqueço o “se” e saiu satisfeito e regozijado pelos 6 anos no banco da faculdade…

NÃÃÃÃÃÃÃÃO.

Acordo assustado, olho o relógio e vejo 08:55h. Ao meu lado, minha cachorrinha se espreguiça empurrando minhas pernas. Minha esposa nem se abala com o meu grito… Fito-a dormindo como um anjo e me acalmo. Meu filho, ainda não existe. Não precisei acordar antes do sol, não peguei ônibus via São Joaquim, nenhuma caixa de manga amassou meu sapato, não gritei contra a falta de educação da senhora, não tive ódio do menino que fingia dormir e o mais importante: não carreguei o Vade Mecum por seis anos na minha mochila. Era só um pesadelo…

O problema é que essa história é real. Foi contada por um grande amigo que ficou sem carro por um período e sofreu pra sair de Camaçari e chegar em Salvador para vacinar o filho. E sabe o que é pior? Ela se repete a cada dia com milhares de pessoas. E nós, com pena da “senhora das mangas”, alimentamos a falta de educação e o desrespeito com o espaço alheio, ficando piedosos e sentidos pelo esforço da idosa. O mundo está perdido… Certo mesmo é o jovem mal-caráter que finge que dorme pra não dar o lugar. Afinal, o que os olhos não vêem, o coração não sente…

Por Erick Cerqueira

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3 comentários

  1. É mesmo uma verdadeira maratona ter que pegar ônibus pela manhã e no final tarde.
    As pessoas não tem respeito pelas outras e ainda se revoltam quando alguém fala uma verdade.
    É, estamos na Bahia, ou porque não dizer BRASIL????

  2. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

    Adoooro txtos assim, fazia muitos dessa forma, mas eram realidade :´(

    Ônibus é sempre um lugar rico em histórias rsrsrs

    Um detalhe perto da realidade do seu amigo, né… auhuahuahahuhaauuha

    curti! =)

  3. É meu amigo, existe centenas de pessoas que passam por essa realidade.
    Juro que ao ler seu texto, pensei que ao descer do ônibus você iria enfrentar uma fila na frente do posto médico e quando chegasse a sua vez, a atendente com um lindo sorriso lhe diria: acabou as fichas.
    (mudei a parte do corpo por uma questão didática)Rs,rs,rs

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