Uma nação de ódio clamando por vingança

E se os Nardonis fossem soltos? Será que a polícia teria como garantir a segurança dos acusados? Não teria. O crime que chocou a opinião pública nacional é um grande exemplo da força da imprensa no nosso país. Poder tão grande que transformou a indignação do povo brasileiro, ante um crime tão hediondo, em um ódio mortal pelos acusados.
Durante a incrível cobertura do julgamento, em março desse ano, ninguém comentava outra coisa, senão o julgamento. O povo pedia justiça, ou seja, condenação severa para os acusados.  Porém, se eles fossem inocentados, talvez fossem linchados dentro do carro da PM.
Cenas lamentáveis de agressão contra os defensores do casal, contra o pai do acusado e, obviamente, xingamentos contra o casal assassino, viravam furo de reportagem. O julgamento era só um detalhe. Questão de determinar quantos anos mais os réus passarão na cadeia. Duvido que o juiz tivesse coragem de inocentar os réus diante de tanto raiva alimentado pela imprensa.

Antes de me lincharem, preciso dizer que também achava os réus culpados. Não os defendi e nem tive dúvidas que o assassino seria o pai e/ ou a madrasta da menina. Mas é preciso pensar na justiça não como um objeto de vingança fria e pura. De acordo com Mariel Marra, “a justiça tem normas, tem rituais, protocolos, tem fundamentos vinculados a direitos, e quando ela é acionada, ela se defronta com o princípio do contraditório, da legalidade, da fragmentariedade, da humanidade, da culpabilidade, dentre outros que devem ser respeitados. Em que de um lado estão os direitos individuais ou coletivos supostamente violados, e de outro os direitos humanos dos acusados. Nas democracias, essas normas, esses rituais, fundamentos e princípios, expressam a vontade e as escolhas da coletividade”. A vingança, por sua vez, é alimentada pelo ódio e pelo desejo de prejudicar o outro como forma de punição pelos seus crimes ou erros. A justiça depende de processos, onde todos, sem exceção, têm direito a uma ampla defesa. Porém, diante de tanta revolta da população, poucos advogados tiveram coragem de defender esse casal. Os que tiveram, temem por uma retaliação futura e irracional, onde eles poderão perder clientes por terem defendido esse casal de “monstros”.

É preciso entender que esse linchamento midiático do casal, antes mesmo do seu julgamento, serviu apenas para acirrar os sentimentos de ódio de milhões de brasileiros, espectadores de um julgamento, quase Reality-Show, onde todos queriam entrar para assistir. Parecia show da Madonna, com pessoas dormindo na fila, virando noite em frente ao fórum no intuito de participar da condenação dos inimigos públicos nº 1 do Brasil.
O casal de assassinos de criança foi condenado para felicidade geral da nação. Agora, todos voltarão as suas atenções para a final do BBB10 (argh!). Mas, pensemos: a sociedade ganhou o que com tanto ódio pelos condenados? Aprendi uma vez, que o ódio é um veneno que nós bebemos e ficamos na espera que o odiado morra. Esse veneno fica em nós, não neles. Vamos voltar a tomar conta das nossas vidas e deixar que a justiça cuide do Casal Nardoni, agora. Nesse caso, o melhor a fazer não é odiar o assassino, e sim, rezar pela vítima.

No Observatório da Imprensa
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=583FDS005

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