Finalmente, o fim…

Acabaram-se as terríveis “festas de final de ano” que tanto odeio. Toda a falsa sensação de paz natalina, de compreensão entre os familiares, de amizade entre os colegas de trabalho, de viagens de final de ano, tudo chegou ao fim. É a melhor sensação de “final de festa” de cada ano, mas é uma pena que aparecem os efeitos colaterais. Os shoppings voltarão ao seu movimento normal, poucas dondocas nas lojas das alas nobres e muitos pobres nos corredores. Voltaram as moderações nas vendas, os descontos para queimar estoque, o desaquecimento da economia, milhares de jovens perdendo seus empregos temporários e milhões de brasileiros endividados por dez meses nos cartões de crédito ou nos carnês, etc.

É incompreensível como as pessoas não se atentam para o fato do Natal ser a festa máxima do Marketing, e não do cristianismo como querem os clérigos. O pobre do Jesus some cada vez mais da festa, dando espaço ao sujeito “tipicamente brasileiro” chamado de Papai-Noel (já falei que não acredito nele num texto anterior). Aquele velho gordo, com roupas de frio, num trenó puxado por renas, que coloca crianças no colo e promete presentes (que não entrega), e além de tudo isso, teve o seu designer idealizado para um comercial da Coca-Cola, é a imagem mais fiel do inferno que se transformou o Natal. Mulheres em estado de êxtase nos Shoppings, filas gigantescas pra comer, estacionar, comprar, entrar em lojas, ir ao banheiro, subir escadas rolantes. Maridos sentados (e emburrados) nas praças de alimentação esperando às suas “respectivas” terminarem as compras, superfaturamento do tender, do peru e chester, meninos gritando “EU QUERO, MÃÃINHÊÊÊÊÊÊÊ”, sinos, velas, bolas, árvores… Só as mamães-noéis dos shoppings salvam o mundo masculino nesse período que se arrasta até o dia 25/12 .

Mas quando tudo acaba, e nós temos a esperança da normalidade, volta tudo de novo, mudando apenas as cores de vermelho para o branco. O Réveillon.

A palavra Réveillon é derivada do verbo francês “réveiller”, que significa “despertar”. Porém, nesse final de ano assisti a uma cena chocante, mas comum nas vésperas de feriados, executada por pessoas que parecem não despertar do transe de estarem transformando uma passagem de dias comuns, em um evento extraordinário.

A fila da para pegar a lanchinha Salvador-Mar grande estava gigantesca às 15h. Não parecia haver a menor possibilidade de todos embarcarem, antes da meia-noite, mas a fila continuava crescendo. Tudo isso para passar o Réveillon nas praias da Ilha. Senti-me um velho por não concordar com tanto sacrifício para tão pouco benefício. Confesso que não entendo até agora tamanho sofrimento para ver as praias da Ilha de Itaparica, banhadas pelas mesmas águas da Baia de Todos os Santos que refrescam a Cidade Baixa de Salvador. Ou seja, passaram entre 4 e 5 horas numa fila, debaixo do sol da Bahia, viajaram mais uma hora (ou quase) de lanchinha e soltaram em Mar Grande, pegaram um ônibus (e outros até mais um barco) para depois de tudo isso, comemorar a passagem do ano em uma… Praia. Talvez se esse roteiro fosse feito por um paulistano ou um mineiro fosse mais compreensivo. Mas por um soteropolitano? Tenha paciência…

Porém, o importante é celebrar o final do ano velho e comemorar a chegada do ano novo. E com tantos desejos de muito dinheiro no bolso e saúde pra dar e vender, tenho certeza que a crise econômica mundial e os problemas do SUS ficaram para trás. Ou no saco cheio do Papai Noel ou talvez na Ilha de Itaparica, presa na gigantesca fila de volta da lanchinha e do Ferry-boat. Agora é só esperar passar o carnaval para começarmos o ano de 2010 na Bahia. Êta terra festeira…

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1 comentário

  1. Também me sinto semelhante a você e aproprio-me dessa linda poesia:

    “RECEITA DE ANO NOVO

    Para você ganhar belíssimo Ano Novo
    cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
    Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
    (mal vivido talvez ou sem sentido)
    para você ganhar um ano
    não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
    mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
    novo
    até no coração das coisas menos percebidas
    (a começar pelo seu interior)
    novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
    mas com ele se come, se passeia,
    se ama, se compreende, se trabalha,
    você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
    não precisa expedir nem receber mensagens
    (planta recebe mensagens?
    passa telegramas?)

    Não precisa
    fazer lista de boas intenções
    para arquivá-las na gaveta.
    Não precisa chorar arrependido
    pelas besteiras consumadas
    nem parvamente acreditar
    que por decreto de esperança
    a partir de janeiro as coisas mudem
    e seja tudo claridade, recompensa,
    justiça entre os homens e as nações,
    liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
    direitos respeitados, começando
    pelo direito augusto de viver.

    Para ganhar um Ano Novo
    que mereça este nome,
    você, meu caro, tem de merecê-lo,
    tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
    mas tente, experimente, consciente.
    É dentro de você que o Ano Novo
    cochila e espera desde sempre.”

    CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE.

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