Odeio o 7 de Setembro e a novela das 8

Sempre odiei o 7 de Setembro. Era o único feriado do ano onde não íamos pra praia ou para um clube na minha infância. Minha mãe me arrastava pelo braço para a Praça da Piedade, em Salvador, onde assistíamos o glorioso Desfile da Independência. Era o único dia do ano, salvo os jogos da Seleção Brasileira de Futebol (o maios orgulho Nacional), onde ouvíamos o Hino Brasileiro à exaustão. Assistia ao famoso desfile das lavadeiras, com os tanques e trouxa  nas ruas, como brincávamos às escondidas, entediado, emburrado e com minha bandeirinha de papel na mão.
Nas TVs, o desfile em todas as capitais e em Brasília os voos rasantes da Esquadrilha da Fumaça na cabeça do presidente. Além, obviamente, dos concursos e brincadeiras para ver quem era patriota o suficiente para cantar corretamente o Hino Nacional e o Hino à Bandeira.

Mas os tempos mudaram. Hoje o presidente não veste farda, eu já passei dos trinta, a Gloriosa Revolução de 64 (como aprendi nas aulas de Educação Moral e Cívica) é reconhecida como o vergonhoso Golpe Militar, e aprendi que D.Pedro não estava sentado no cavalo às margens plácidas do Ypiranga, pois tinha hemorróidas. O tempo passa, os honrosos pracinhas que via, já devem estas aposentados e a TV, que agora é digital, faz as mesmas coisas de antes. Concurso para ver quem sabe o hino completo e correto, exibição dos honrosos desfiles em todas as capitais, a Esquadrilha da Fumaça e seus rasantes na cabeça do presidente, etc.

A diferença principal é que cresci. Aprendi que votar é um direito e ao mesmo tempo é um “serviço obrigatório”. Servir a pátria é ser humilhado, acordar de madruga, tomar grito de soldados, tomar chuva ou sol durante horas, esperar calado, ficar nu diante de vários outros jovens e ser obrigado a fazer um juramento à bandeira, e depois entender que isso tudo é um direito e uma honra patriótica, chamada Alistamento Militar. Ser cidadão é ter o direito de ver na TV, um ex-presidente ser acusado de inúmeras irregularidades administrativas além do mal uso de verbas públicas e achar normal sua permanência na presidência do Senado Federal. Ser cidadão brasileiro é vibrar com a vitória de 3 a 1 ante a Argentina e não pensar que carros fabricados no nosso “Impávido Colosso” são exportados para os hermanos, e lá são vendidos muito mais baratos do que por aqui. Ser patriota é calar-se diante da desigualdade social, corrupção, inércia do nosso povo sempre “deitado em berço esplêndido” e viver feliz na última semana da novela, pois a vilã vai tomar uma surra da pobre mocinha boazinha enganada.

Mas que importa. Viva a Independência do Brasil, proclamada no 7 de setembro de 1822, e efetivada no 2 de Julho do ano seguinte, com a verdadeira expulsão das tropas portuguesas na cidade do Salvador. Viva o Brasil, no ano da França, com Sarkosy em Brasília. Viva o povo brasileiro, que anda meio à Caminho das Índias, em busca da evolução espiritual, nas margens plácidas e imundas do Rio Ganges.

Arebaguandi, passa logo o 12 de Setembro para me ver livre do 7 e só assim proclamaremos a verdadeira Independência do Brasil da invasão Firanghi que vem de lá das Terras Hindus.
Are baba, como eu odeio o 7 de Setembro e a novela das 8.

Anúncios

2 comentários

  1. Gostei!
    Brilhante texto!
    Mas… Até q Caminho da Índias não foi tão ruim assim, vai!… Pior é essa bo*** de “Viver a vida”. Não aguento mais assistir a mesma novela do Manoel Carlos! >=/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s