“Todo enfiado” nos 15 minutos de fama

"todo enfiado professora e warhol"A expressão “celebridade instantânea” é algo cada vez mais presente no moderno mundo da comunicação. Pessoas passam do mais absoluto anonimato para o estrelato em questão de segundos. Esse fenômeno vem confirmar a célebre frase do cineasta e artista plástico Andy Warhol: “In the future everyone will be famous for fifteen minutes” (no futuro, todos serão famosos por quinze minutos). Porém, o autor da frase não tinha noção da real amplitude e peso que a sua sentença iria ganhar no seu post-mortem, com o avanço das tecnologias digitais e da internet.
Semana passada, o Brasil ficou chocado com as imagens de uma professora de ensino fundamental dançando de forma, digamos, “sensual demais”. A pedagoga, pós-graduada, aparece dançando junto ao cantor de uma banda de pagode que levanta o seu vestido e puxa a calcinha da educadora para cima, numa coreografia (se é que isso pode se chamar de coreografia) para fazer jus ao nome da música em questão: “Todo enfiado”.
Infelizmente para a “pró”, sua performance foi filmada por dezenas de aparelhos celulares e, posteriormente, publicada no maior site de hospedagem de vídeos do mundo, o YouTube. Com isso, a escola onde ela lecionava a demitiu. O vídeo ultrapassou os 100 mil acessos e, após a divulgação por parte da grande mídia, proliferou por toda a internet. O mais curioso é que o caso mudou o seu foco a partir da intervenção da imprensa. A mídia, em geral, tratou o caso de duas maneiras. Em primeiro lugar focou a demissão da professora, suas consequências e se era justo ou injusto o ato em si. Isso fica claro no lead da matéria publicada por Glauco Araújo no Portal G1 (SP): “Professora da Bahia é demitida após vídeo sensual cair na web, diz advogado. Instituição de ensino, em Salvador, informou que medida foi consensual.”

O segundo enfoque abordado foram os comentários a respeito da postura ética necessária dentro e fora do âmbito profissional. Dezenas de blogs e sites de grandes jornais fizeram comentário acerca desse tema, condenando ou absolvendo a professora-dançarina.

Quem não viu uma “dancinha” provocante?
Porém, outras abordagens poderiam ser feitas e acabaram passando despercebidas. Onde estão os movimentos feministas que não reagem e não ensinam às mulheres que os excessos nas horas de diversão de hoje podem ser filmados, divulgados e usados contra elas mesmas nos Tribunais da Santa Inquisição da internet?
A professora é muito mais vítima que ré nessa execração pública nacional. Sua demissão é apenas um dos problemas que irá enfrentar de agora em diante. A sua imagem estará sempre vinculada às imagens produzidas pelos celulares e câmeras digitais e difundidas pela internet. Seu erro foi não medir as consequências de um dos maiores problemas da nossa sociedade contemporânea: a proliferação do erotismo nas músicas.

Assim como a pedagoga, milhares de jovens e adultas na Bahia estão dançando livremente e fazendo as mesmas performances na Boa Terra. No próprio vídeo difundido, outras duas jovens fazem o mesmo – e coisas até mais explícitas que ela. A diferença ficou por parte da sua profissão de educadora. Porém, que atire a primeira pedra (nela) o baiano que nunca viu nenhuma outra “dancinha” provocante e até certo ponto, sexual, como aquela, sendo executada por mulheres de todos os níveis sociais. Quantas professoras estão horrorizadas no momento, por saber que fazem, ou já fizeram, alguma coreografia tão ou mais vulgar que aquela?

Erotismo imprescindível
O pagode baiano, apesar da falta de qualidade melódica e da vulgaridade de muitas das suas letras, não é o único expoente da vulgaridade no cenário musical. O funk carioca, o forró-elétrico-nordestino e muitos outros gêneros musicais espalhados pelo Brasil apresentam coreografias tão “provocantes” quanto aquelas exibidas mais de 100 mil vezes no YouTube. Professoras, delegadas, juízas, policiais, jornalistas (diplomadas ou não), cozinheiras, secretárias e todas as profissões onde as mulheres estão inseridas possuem suas representantes pagodeiras, funkeiras etc. O fato triste é a percepção de rebaixar a mulher a um mero objeto sexual, sendo usada de forma cada vez mais indigna para animar as platéias nos shows espalhados pelas periferias e zonas nobres da cidade, sem discriminação, Brasil afora.
O problema não é da banda de pagode, cujo nome não foi citado para não promovê-la ainda mais. Vai muito mais além. A educação, tema certo de tantos palanques no ano que vem, está sendo deixada de lado em detrimento do mercado fonográfico.

A fábrica de bandas de pagode, que agradam em cheio aos jovens e adultos da capital baiana, ganha o mercado com letras cada vez mais eróticas e coreografias tanto quanto. Refrões como “toma-lhe fica”, “tapa na rachada”, “rala a tcheca no chão”, “toma madeirada”, “esfrega a xana no asfalto”, “tudo até o talo”, dentre outras da atual “poesia” do pagode baiano, são executadas, dançadas e cantadas em alto e bom som em todos os cantos da cidade do Salvador. Quanto mais fácil e sexual for o teor do refrão do “pagodão”, mais será cantado pelas ruas, vias e pelo mangue baiano. O erotismo na música é algo quase imprescindível para o sucesso da mesma.

Recebida como “celebridade”
A pobre professora sofreu ao mesmo de três grandes problemas. Em primeiro lugar, sofreu por ter tido a péssima idéia de se expor em cima de um palco. Depois sofreu pela exposição e proliferação do seu vídeo na grande rede. E principalmente, perdeu o emprego para a hipocrisia de milhares de pessoas que condenaram o seu ato, mas que produzem (ou reproduzem) dancinhas ainda mais eróticas que as dela. Muitas das pessoas que a condenaram, incentivam filhos e sobrinhos, a partir dos 3 ou 4 anos, a dançarem as novidades do cenário musical do “pagodão” baiano e acham “bonitinho” ver surgir a nova geração de pagodeiros.

No jogo entre Bahia e São Caetano, disputado no dia 29/08, a professora foi recebida com o termo de “celebridade” e concedeu entrevista a uma rádio local, dizendo ter sido orientada pelo seu advogado (que estava ao seu lado no estádio) a ir assistir ao jogo do seu time, o tricolor baiano, sem nenhuma preocupação. Na entrevista teve de ouvir a seguinte pergunta: “Você veio ver o Bahia mandar o São Caetano `Todo Enfiado´ para São Paulo?” E ela respondeu, sorrindo, que sim. Enfim, não importa se por bem ou por mal, “in the future everyone will be famous for fifteen minutes”. O futuro já começou, Mr. Warhol.

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No Observatório da Imprensa
Sob o título de “Sensualidade vulgar tem 15 minutos de fama“.
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=553FDS007

Link para o vídeo da professora dançarina
http://esgoto.wordpress.com/2009/08/28/todo-enfiado/

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3 comentários

  1. Excelente texto!

    “aonde que eu vou pagar a uma mulher dessas pra ensinar minha filha rapa?! isso é p***!”

    lembrou de alguém?

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  2. O lado B das mídias Sociais. Duas em uma, as mídias sociais junto às tecnologias mais recentes são o maior sistema de espionagem já inventado pelo homem. Gravam tudo o que você fala e expõem em vídeo e fotos e textos para a eternidade. A Web foi criada para fins militares, é uma arma de espionagem, a maior delas. E continua sendo usada para isto. O resto é ilusão.
    Alteram suas regras, as mídias sociais, mudando todo o comportamento de uma sociedade e ou levando-a ao constrangimento porque expõe suas particularidades. Que só se fazia entre amigos íntimos ou às escondidas entre quatro paredes. Porque o usuário ainda se ilude que a Internet é algo privado, que só você ou quem você quer tem acesso às suas informações íntimas e particulares, naturalmente confidenciais como inclusive confidências verbais ou escritas feitas à algum(a) amigo(a).
    E o que é pior, em dois pontos:
    Primeiro, existem organizações criminosas especializadas em criar armadilhas para pessoas comuns que vivem solitáriamente e usam a Internet em uma frequência maior, com o risco de levar inexperientes ào crime em si, por pura ingenuidade. Transformando-as em reféns (vítimas) das próprias confidências, levando-as à navegações excusas, tenebrosas e às escuridões das trevas “também ciberneticas”, expondo e comprometendo-as a situações inimagináveis, causando no mínimo traumas psicológicos, talvez para a eternidade.
    Segundo: é uma mídia que está nas mãos de meia dúzia de empresas influenciando as massas, o planeta, e de alguma forma com os seus dados estatísticos extraídos dos segredos pessoais guardados em seus bancos de dados. Ameaçando a todo momento e ou constrangendo e inibindo os movimentos legítimos em defesa de suas pátrias. Também transformando seus usuários em reféns (vítimas) das próprias confidências, navegações secretas e exposições de suas estratégias políticas, quando não se aproveitando dos momentos pessoais, suas intimidades e particularidades verbais ou físicas.
    Mesmo os Guerrilheiros, rebeldes, revolucionários e independentes são dependentes e submetidos às ações das plataformas que usam para “erguerem suas vozes” como: Facebook, twitter, Google, Yahoo, Gmail, hotmail, msn, Blog, Orkut, Linkedin, que s
    ap bancos de dados gigantescos que guardam as informções de todo o planeta com os seus IP´S. O que apelidei de era apocalÍPtica, com o maior´e único detentor da informação de todos inclusive das mídias sociais, o próprio grupo detentor da W W W, que controla tudo, cada virgula movimentada por todos eles.
    Os supercomputadores calculam estatisticamente tudo, baseado em informações pessoais para tomarem conclusões sobre mudança de comportamento à até um golpe de estado em uma nação, e como e onde se aproveitar disso.
    Como exemplo, de nome sugestivo, No Brasil temos o Tiranossauro, apelidado de Tirano, é um supercomputador da receita federal brasileira que cruza dados de seu cartão de crédito, imóveis (cartórios), contas bancárias de mais de 170 bancos, conta telefônica, plano médico, chegando `a mais de 30 opções de cruzamentos de informaçoes, hoje. Com tendência a aumentar sempre, vasculhando a vida fiscal e financeira de todo cidadão brasileiro e em milésimo de segundos.
    Imagine os supercomputadores que calculam estatisticas via mídias sociais, WEB, bancos de dados, identidade digital de voz nos bancos de dados das empresas telefônicas e etc?
    Esta na hora de criar um movimento que crie alternativas para que não fiquemos à mercê de meia dúzia de detentores desta tecnologia. Criar e fortalecer outras mídias sociais em bancos de dados independentes e seguros de privataria e acabar com o monopólio midiático e de espionagem que se instalou na Internet.
    José da Mota.
    Comentário para artigo publicado também e lino a princípio no blog de Altamiro Borges, para artigo de Luiz Carlos Azenha.

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