Quando Maísa chorou…

maisa

Tive a felicidade de ter grandes professores na faculdade. Um deles, Eduardo Rocha, teve o grande mérito de me apresentar a uma das personalidades que mais mudaria a minha formação: Friedrich Wilhelm Nietzsche. Em um dos seus livros, Muito além do bem e do mal, esse louco e genial alemão questionava: quem define o que é bom ou mal para alguém? A partir disso, passei a entender as 6 bilhões de “verdades” que existem no mundo. Um dos grandes problemas de quem expõe e defende aquilo que pensa, no mundo como de hoje, é parecer arrogante e intransigente. Mas, em contrapartida, essas mesmas pessoas acabam por ganhar o respeito das outras. Parece paradoxal, mas o que seria do mundo sem os questionadores?
No dia 09 de junho, um artigo publicado no Observatório da Imprensa surpreendeu-me pela franqueza, correção, inteligência e boa argumentação. O artigo em questão é “Comunicação ou mero moralismo?”, do dr. Paulo Bento Bandarra. Bandarra critica duramente uma das terríveis tendências dos novos (e velhos) jornalistas nacionais. A síndrome anticapitalista dos estudantes de jornalismo. Talvez, essa ação subversiva seja somente um reflexo dos tempos onde a repressão à imprensa foi muito dura, na época da ditadura (ou ditabranda, segundo a Folha). Mas a imprensa já não é mais marginal. Não se colocam bombas em bancas de revista. Não se fecham jornais e revistas em represálias as suas reportagens e, principalmente, nossos impressos vão muito além dos panfletos anarquistas ítalo-brasileiros do início do século XX.

 

A exposição da “pobre menina rica”
O dr. Paulo Bento critica duramente o moralismo que impera, não somente no âmbito jornalístico-midiático, mas em todas as instâncias da nossa sociedade moralista católica cristã. Se bem que os novos cristãos e sua teologia da prosperidade começam a evidenciar a necessidade das bênçãos ainda em vida, algo que parece ter sido esquecido pelos católicos, na terrível vitória da Judéia contra Roma, como diria Nietzsche.
Em pleno século XXI ainda possuímos costumes medievais. O próprio fato de usar o 21 em algarismo romano, na frase anterior, é prova disso. O latim utilizado pelos advogados em seus textos complicadíssimos é outro sinal dos tempos remotos, onde o latim era utilizado pelos aristocratas e eclesiásticos como forma de se manterem distantes das ralés. Na imprensa e na mídia, em geral, o que perdura é a guerra entre ideologia e o capitalismo. Os ideólogos, arrasadora maioria dos profissionais, criticam os vendidos que fizeram e fazem sucesso nos meios de comunicação. Luciano Huck foi duramente criticado ao sair da Band e ir para a Globo. Vendido, mercenário, dentre outras denominações, o então jovem apresentador do “H” deu uma declaração bombástica. “Não vestirei a camisa da Globo, irei tatuar a marca no meu peito.” Essa polêmica declaração gerou muitas críticas entre os “não-vendáveis” profissionais anti-Globo, mas não passaram de críticas esquecidas, que não moveram e nem moverão moinho algum.

Agora a questão principal é sempre dar ou não importância ao dinheiro, esse vilão moderno que move o mundo, mas não traz felicidade (talvez mande entregar via delivery). Quando Maísa chorou um monte de críticos ferrenhos e opositores a exploração do trabalho infantil surgiu em todos os blogs e portais jornalísticos da nação. Nem as lágrimas de Nietzsche tiveram tanta repercussão (Quando Nietzsche Chorou, do autor Irvin D. Yalom). As lágrimas da pequena Maísa parecem ter manchado a maquiagem que escondia a verdadeira face dos observadores da imprensa daqui. A imprensa urubu, que tanto critiquei no caso do seqüestro de Santo André, parece ter pousado no Observatório. Por que só agora a superexposição da menina prodígio do tio Sílvio Santos está incomodando o Ministério Público? Será que o Ministério Público não está apenas pegando uma carona na exposição da “pobre menina rica”? E nós, do Observatório, também não estamos nessa carona?

Opção mais “confortável”
Penso muito próximo do dr. Bandarra. Acredito que seja só mais um caso da imensa hipocrisia nacional se manifestando e se concentrando em um episódio, até certo ponto, pequeno, ante tantas mazelas sofridas no dia-a-dia da nossa sociedade por milhões de crianças em estado de miséria e desamparo, Brasil a fora. Precisamos acabar com essa ideologia de ter o capitalismo como vilão da nossa sociedade. Ele está aí, e bem e ou mal, com crise ou sem crise, é a Lei. Dura Lex, Sede Lex (só para usar um pouco de latim, como os advogados e os padres exorcistas do cinema).
Vamos acabar com essa hipocrisia, senhores. Maísa e sua família precisam da caixa registradora, como critica Washington Araújo em seu artigo, “A menina-prodígio e a caixa registradora”. Ou será que a mini-petiz, apelido de Marcelo Taz à apresentadora da emissora concorrente, preferiria estar cortando cana no nordeste, vendendo chicletes em semáforos, pedindo esmola nas ruas ou sendo mais uma malabarista do sinal vermelho? Como será que o Ministério Público prefere: Maísa sendo usada pelo SBT ou sexualmente explorada pelas ruas, caro Ministério? Acredito ser a primeira opção mais “confortável” para todos, enquanto as crianças nas outras situações, sim, deveriam ser apoiadas e ajudadas pelo MP. Mas aí, que Ibope teria?

 

 

Extraído do Observatório da Imprensa.
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=543MOS002

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